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O&M de eólicas entra em fase de modernização

O&M de eólicas investem em controle próprio das turbinas, ao mesmo tempo em que fornecedores sofisticam contratos de serviços.

Assim como se tornou em pouco mais de dez anos a segunda principal fonte de energia elétrica do país, responsável por 9,7% do injetado no SIN, o setor eólico também demonstra rapidez na modernização da gestão operacional de seus 637 parques de geração que hoje totalizam 16 GW de capacidade instalada.

O fenômeno de modernização é claro ao se avaliar as mudanças que ocorreram nos modelos de contratação de serviços de operação e manutenção (O&M) dos parques. Isso tanto pelo lado da oferta, o que no caso envolve a atual profusão de contratos de longo prazo, integrais e com metas por performance oferecidos pelos fornecedores de aerogeradores, como pelo lado da demanda, com empreendedores mais ciosos da operação, investindo no acompanhamento inteligente do serviço executado pelos contratados.
Nos primeiros parques do país, depois do primeiro leilão em 2009 até aproximadamente 2014, a opção mais comum era de contratos de O&M parciais, nos quais por exemplo as substituições de componentes principais dos aerogeradores não faziam parte do escopo do contrato, os prazos eram menores e os termos acordados de garantia de operação se baseavam na disponibilidade por tempo de geração das máquinas.

Essa primeira estratégia foi sendo substituída ao longo do tempo, na medida em que a geração eólica crescia no país, gerando escala para novas ofertas de contratos de serviços pelos fabricantes, e também por conta do amadurecimento dos técnicos e empreendedores, que passaram a entender melhor as necessidades da operação no cotidiano dos parques.

Renegociações

Além dos contratos mais recentes, assinados nos últimos dois ou três anos, já serem concebidos em sua maioria com essa nova visão, muitos outros, fechados até aproximadamente 2014, foram renegociados. Isso ocorreu por exemplo com a Casa dos Ventos, que desde o começo de sua operação desenvolveu, implantou, operou e transferiu para outros geradores 1,1 GW de cinco complexos e atualmente se encontra em fase de reinvestimento para colocar em operação mais 1,5 GW até 2023.

Segundo revelou à Brasil Energia o diretor de implantação e operações da Casa dos Ventos, Thiago Rezende, os primeiros contratos de O&M com os fornecedores de aerogeradores, nos parques transferidos, eram parciais e foram depois renegociados, já com os novos proprietários, para o modelo integral (full scope) e seus prazos foram alongados. Além de na época o setor não ter escala suficiente para tornar interessante a oferta de serviços full scope e de longo prazo dos fornecedores, Rezende avalia que a cadeia de suprimentos e de prestadores de serviços também não estava maduro como atualmente.

No período de seus primeiros investimentos, esse panorama fez a Casa dos Ventos desenvolver massa crítica para a gestão dos ativos. Isso resultou, para começar, na adoção de equipes próprias para a manutenção da área de infraestrutura dos parques (a chamada BoP, balance of plant), que engloba as redes, linhas e subestações dos complexos.

Esse know-how no BoP é hoje utilizado na nova fase de investimentos, no Parque Folha Larga Sul, na Bahia, de 151,2 MW e em operação total desde agosto, e o será também nos próximos projetos: o complexo Rio do Vento, de 504 MW, em implantação no RN, e os demais 900 MW de outros parques em negociação e previstos para início de obras em 2021 e conclusão em 2023. “Alguns players terceirizam a manutenção das áreas do BoP, mas entendemos esse serviço como estratégico e preferimos assumi-lo integralmente”, disse Rezende.

Outra linha de atuação para desenvolver massa crítica própria foi a criação de centro de operação remoto em Fortaleza em 2014. Pelo centro, é possível monitorar não só os trabalhos da equipe própria responsável pela área de infraestrutura como também acompanhar o serviço de O&M prestado pelos fornecedores das turbinas.

Neste último caso, segundo Rezende, com ferramentas de gestão desenvolvidas a partir de técnicas de machine learning, e a criação de uma área de engenharia de confiabilidade e performance, a central consegue antecipar falhas na geração em tempo real, avaliando o desempenho de cada aerogerador do parque, o que serve como supervisão do trabalho feito pelos contratados. “Isso melhora o resultado operacional”, diz.

Disponibilidade

A postura mais proativa no acompanhamento dos serviços de manutenção, de acordo com o diretor da Casa dos Ventos, influenciou também na mudança de perfil dos contratos atuais e futuramente assinados para o O&M dos aerogeradores. Já no contrato de 20 anos com a Vestas, fornecedora das 36 turbinas de 4,2 MW do Parque Folha Larga Sul, foi estipulada garantia de disponibilidade com base na energia, em vez do tradicional modelo que se baseia no tempo disponível de geração.

Segundo Rezende, estabelecer percentual mínimo com base na energia gerada estimula o fornecedor a programar as paradas para intervenções nas turbinas nas melhores “janelas” de vento, ou seja, quando a velocidade do vento é mais baixa e, portanto, com menor capacidade de geração. Já nos contratos com base em tempo, que estabelece o percentual mínimo de horas de disponibilidade das turbinas, essa preocupação em escolher o melhor momento para parar não existe. “Nesses casos o fornecedor pode parar em uma hora com vento favorável, já que o que ele precisa garantir é o percentual mínimo de tempo em operação”, explicou. Na Casa dos Ventos, a média de disponibilidade atingida é de 98% com base na geração de energia. Não atingir o percentual acordado sujeita o fornecedor a penalidades.

A preocupação em aproveitar melhor a capacidade dos aerogeradores também fez a AES Tietê ter olhar mais criterioso com os contratos de O&M das turbinas eólicas do seu parque Alto Sertão II, de 386 MW, na Bahia, adquirido da Renova em 2017, e também fará parte de replanejamento operacional do complexo Ventus, de 187 MW, no Rio Grande do Norte, recém-adquirido da J.Malucelli.

A ideia central adotada após as aquisições, segundo disse à Brasil Energia o diretor de Desenvolvimento de Novos Negócios da AES Tietê, Bernardo Sacic, é avaliar o quanto é possível deslocar da operação local para a operação remota no centro operacional de Bauru (SP), a fim de otimizar não só o BoP, onde o grupo acumula grande experiência com seus outros ativos hidrelétricos e também solares, como também o desempenho dos aerogeradores.

Na estreia no setor eólico com o parque Alto Sertão II, de acordo com o diretor de operações Anderson Oliveira, a empresa intensificou o controle das turbinas e conseguiu, principalmente por conta da supervisão remota online dos técnicos em Bauru, elevar o nível de disponibilidade de tempo que no momento da aquisição era de 89% para os atuais 99%, diminuindo as paradas por falhas. Nesse parque, a GE, responsável pelas turbinas, tem apenas contrato parcial, com manutenção preventiva e mão de obra, ficando a maior parte dos serviços, todo o BoP e maior parte das necessidades turbinas, nas mãos da AES Tietê.

No Complexo Ventus, adquirido em agosto da J. Malucelli e que a AES deve assumir a operação em dois meses, depois das aprovações do Cade e trâmites burocráticos, está prevista a mesma linha de atuação adotada no Alto Sertão II, ou seja, a de assumir o máximo do controle operacional e de manutenção. Atualmente o contrato de O&M – que será assumido pela AES – é de full scope com a GE para as 112 turbinas de 1,67 MW GE (Alstom), com garantia de disponibilidade por tempo de 97%.

Segundo Oliveira, a expectativa é conhecer bem a rotina de operação e manutenção do complexo durante os próximos quatro anos, visto que o contrato com a GE se encerra em 2024. A partir daí a ideia é tomar a decisão de renegociar ou renovar o mesmo contrato.

Ainda assim, para o diretor, a maior tendência é ao fim desse período a AES já ter se apropriado de boa parte dos serviços, não só da manutenção da infraestrutura, o que naturalmente ocorrerá ao assumir os parques, mas também dos aerogeradores, dada a experiência com o Alto Sertão II. Isso principalmente ao se levar em conta que o centro de operações em Bauru, intervindo e interagindo com técnicos de campo, já está muito acostumado a assumir o controle operacional em fontes de geração mais complexas, caso das 9 hidrelétricas e 3 PCHs do grupo, que totalizam 2.658,4 MW de capacidade instalada. “Em comparação, o cotidiano da geração eólica é muito mais simples”, disse.

Mix na CPFL

Com 645 aerogeradores, em 45 parques eólicos, a CPFL Renováveis também centraliza em seu Centro de Operação Integrado (COI) em Jundiaí (SP) a operação remota de todas as usinas, incluindo as 40 PCHs, 8 térmicas a biomassa de cana e uma solar. Segundo o superintendente de O&M, Bruno Monte, o controle ininterrupto permite que qualquer intercorrência nas usinas seja comunicada para intervenção das equipes em campo.

Por ter uma capacidade instalada bem diversificada, com vários fornecedores de turbinas, a CPFL utiliza as duas modalidades de serviços em seus parques: alguns têm contratos full scope com os fornecedores e em outros as rotinas de O&M de eólicas são realizadas por equipes próprias. Segundo Monte, a empresa foi uma das pioneiras em assumir a responsabilidade de operação e manutenção das turbinas, tendo hoje mais de 200 aerogeradores sendo cuidado dessa forma. Já o BoP é todo feito com equipe própria.

Apesar dos resultados serem positivos nas experiências de assumir as turbinas, o superintendente considera também os contratos integrais uma boa opção, a depender do cenário. Nesses casos, a disponibilidade garantida é normalmente em 97% e 98%, com base tempo. Entretanto, segundo Monte, há pontos de atenção que os proprietários devem estar atentos nos índices de disponibilidade: os expurgos considerados no cálculo da disponibilidade garantida e o período do ano em que a indisponibilidade ocorre, já que a depender da sazonalidade dos ventos os impactos podem ser diferentes.

Voltalia investe em controle

Outra empreendedora que procura ter maior controle sobre a operação é a Voltalia, que está investindo em um centro de operações em Mossoró, no Rio Grande do Norte, com inauguração prevista ainda neste ano. Atualmente o O&M em campo, da infraestrutura, é próprio, para a capacidade em operação de 580 MW de seus parques eólicos. Com o novo centro, a operação remota, segundo o CEO da Voltalia, Robert Klein, vai maximizar também a produção de energia. “O centro vai trazer mais segurança e performance para a geração”, disse.

Segundo ele, a equipe de programadores da Voltalia desenvolveu uma plataforma própria para o Centro de Operações que foi batizada de Analytics Engine, sistema capaz de analisar a performance de todos os ativos, com dados da operação, de finanças, ambientais, de comercialização e até social. Mas, em específico para O&M, o programa coletará e armazenará dados operacionais e rodará algoritmos para prevenir problemas futuros e avaliar a produção de energia e, por fim, analisará a eficiência das turbinas.

O controle das turbinas com o monitoramento remoto vai funcionar em conjunto com os contratos de O&M full scope que a Voltalia mantém para todas as suas turbinas com os fornecedores, todos com garantia de disponibilidade de tempo entre 97% e 98%. Essa união, segundo o CEO, vai garantir melhor desempenho na geração.

Para Vestas, dificuldade de importação favorece o full scope

A maioria dos contratos de prestação de serviços de O&M hoje assinados pela Vestas no Brasil são integrais, full scope, disse à Brasil Energia a diretora de serviços da fornecedora de turbinas, Andréa Augusta Moura.

Segundo ela, a preferência pelos pacotes integrais de serviços no país se deve principalmente às dificuldades que os empreendedores encontram para importar peças para a manutenção de seus aerogeradores.

A burocracia nos processos e a demora no trânsito marítimo e terrestre, continua Andréa, têm feito os clientes brasileiros optar por dois tipos de pacotes (AOM4000 e AOM5000), que incluem no escopo toda a manutenção preventiva e corretiva das turbinas, além do fornecimento integral de peças, consumíveis, mão de obra, ferramentas e guindastes associados aos trabalhos ao longo da vida útil do equipamento.

Segundo ela, a Vestas já assinou vários contratos de 20 anos com esses pacotes, caso do contrato no Folha Larga Sul, da Casa dos Ventos.

Essa situação, porém, já não se repete na Europa, diz Andréa, onde a proximidade entre países permite um trânsito de cargas ágil, facilitando o envio e recebimento de peças importadas em questão de dias. Isso permite que os clientes europeus consigam optar por pacotes de O&M parciais, ou limited scope, disponíveis em três tipos que variam entre si quanto aos serviços de manutenção preventiva e corretiva, que podem ser opcionais, e quanto ao fornecimento de consumíveis e sobressalentes menores.

Fonte: Click Petroleo

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